terça-feira, 25 de setembro de 2007

Nessa água que não pára, de longas beiras


O Pai, no conto de Guimarães Rosa, era um homem reservado. Não era criatura de palavras, não era afeito à auto-exposição e nem saberia expor-se se o desejasse. Jamais criaria um blog, por exemplo. Ainda assim havemos de ter nossas semelhanças.

Quanto tempo essa idéia maturou na sua cabeça simples? Algumas idéias, imagino, demoram muito a amadurecer. Elas têm seu tempo, não convém apressa-las. Chegada a hora, lá ele manda fazer sua canoa, de boa madeira, e com lugar apenas para um, porque a sua é viagem que se faz só. É jornada para dentro de si mesmo, onde ninguém alcança, aonde não se leva ninguém. Eu vou a uma loja e compro uma motocicleta. Modesta, conforme minhas posses. 150 cilindradas, Honda NXR 150 Bros ES, para ser preciso. Tão simples que há de aguentar nossa jornada.

Vou para Machu Picchu, no Peru, em minha moto, comprada hoje. Está lá na sala neste momento, em paz e recolhida. E por que ir a Machu Picchu numa motocicleta?, perguntareis talvez. E por que não?, perguntarei de volta. É uma resposta tão boa como qualquer outra, para uma pergunta desprovida de sentido. Haveremos de nos preparar bem, eu e minha máquina, até porque não tenho experiência com motos e minha habilidade atual não me permite ir até o centro da cidade em segurança, na verdade. Adquirir habilidade em pilotar, aprender a mecânica básica para me virar na estrada em caso de defeitos e para pequenas manutenções preventivas que serão necessárias para a nossa segurança, planejar rotas, detalhes, principalmente os mais insignificantes, que são os mais importantes.

Vou contando aqui a minha preparação. São cerca de 5.800 Km, de Recife a Machu Picchu, se você usar os atalhos. Espero contar a ida, e espero contar a volta. Mas não há ida e nem há volta. Não há viagem. "A Terceira Margem do Rio" (http://www.releituras.com/guimarosa_margem.asp), esse conto maravilhoso de Guimarães Rosa, de onde emprestei o título do meu blog e deste primeiro texto, fala exatamente disso. É a nossa angústia, a nossa solidão inescapával, que nos levam a "viajar". Essa procura não tem fim. Não há final possível nessa viagem, não há porto nesse rio. O destino, o rio, a canoa, o remo, a estrada, a moto, somos nós. Cumpre ferir a superfície da água sem cessar, ferir a correnteza de novo e de novo, e no final estamos nós. Sozinhos. Somos nós, local de partida e chegada. Trajeto mais curto entre dois pontos. A terceira margem somos nós mesmos.










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